domingo, 9 de dezembro de 2012

A história do Dr. Ari e da Mônica (...continuação de "O Pipoqueiro")



Depois do episódio com a andarilho os olhares curiosos se assentaram ainda mais sobre o pipoqueiro. Próprio do interior de Minas. Contudo, ninguém ousava a perguntar-lhe nada: lançavam algumas indiretas, “jogavam verde para colher maduro”, insinuavam, mas perguntar diretamente, jamais. Explico: é que o pipoqueiro tinha uma educação refinada – um verdadeiro gentleman, como diriam os mais modernos –, um indivíduo cuja educação parece ter adquirido de uma nobre linhagem, aprimorada em um tradicional colégio inglês. Tratava a todos com o mais absoluto respeito e deferência, até mesmo as crianças. 

Certa vez, um dos netos da D. Candinha, ainda criança miúda, agarrou-lhe os fios do bigode enquanto recebia a pipoca. Todos os presentes se constrangeram – a final, bigode de homem é coisa que não se brinca –, e a avó do moleque se preparava para lhe dar umas palmadinhas quando o bom pipoqueiro, firme mas sem perder a compostura, se dirigiu ao infante:

-  O Sr. queira, por obséquio, desvencilhar-me dos meus pêlos faciais eis que, do contrário, não terás mais pipoca.

É obvio que o menino não conseguiu entender tudo, mas, o principal, a parte da pipoca, foi suficiente para que interrompesse a brincadeira desagradável. Contudo, embora tenha conseguido a pipoca, da palmada de D. Candinha não se livrou.

Portanto, ninguém queria passar por deselegante diante de uma pessoa que até as crianças tratava de “senhor”. É aquela regra universal: dê-se ao respeito e será respeitado. A cidade, se quisesse, para esmiuçar o caso da andarilho, teria que lançar mãos de outros métodos que não o do interrogatório.

***
Naquela manhã, como de costume, o pipoqueiro saia de sua casa. Cumprimentou os velhinhos que se reuniam na praça e um jovem advogado que ali passava:

- Bom dia Dr. Ari !

- Bom dia Sr. Juca, animado para o festival?

- Já encomendei uma barraca nova. Este ano, além das pipocas, oferecerei doces e outras guloseimas. 

- Decerto a festa ficará mais bonita. Prometo que vou dar uma passadinha lá, a Mônica adora doces!

- Será um prazer recebê-los. Um bom trabalho!

- Para o senhor também.

Respeitado pela comunidade, antes de transpor a porta da Prefeitura  Dr. Ari não deixava de dar atenção à gente simples que encontrava pela praça. Ouvia os “causos” dos velhinhos, as reclamações das viúvas e dava conselhos jurídicos a quem precisasse. 

De todos os moradores da cidade, Dr. Ari era o único que parecia pouco se importar com o passado do pipoqueiro. É que, como ele, era morador novo da cidade. Havia chegado pouco depois do pipoqueiro, à cerca de 1 ano e 8 meses. A  bem da verdade, jamais imaginava que iria parar naquela cidade.

Arizinho, como era conhecido até o ultimo ano da faculdade, não sabia o que iria fazer da vida. Estudante de origem modesta, sempre arcou sozinho com seus estudos. Quando passou no vestibular, não sabia se comemorava a vitoria ou se lamentava pelas despesas que se apresentavam.  Mas o certo foi que, com um estágio aqui, outro emprego temporário acolá, Ari foi levando. 

Durante o curso, fez boas amizades, dentre elas Hideraldo, filho de família rica e poderosa daquela cidade. O que sobrava em recursos em Hideraldo, faltava-lhe em inteligência – ao contrário de Ari. Daí a combinação perfeita: o que sobejava em um, carecia em outro: era Hideraldo quem comprava os livros, mas era Ari quem melhor os compreendia para, no dia dos exames, dar uma “mãozinha” para o amigo. 

Mas o grande dilema de Ari era Mônica. Colega de turma, Mônica era noiva de um cara “bem de vida” que além de bancar-lhe os estudos agradava-lhe com os melhores presentes. Mas Mônica, ao contrario de muitas outras garotas em sua situação, era inteligente e esforçada. Gostava de conversar com Ari e com ele se abria.

Case-se com uma mulher com quem você goste de conversar”, reverberava na mente os conselhos do avô de Ari. E o que Ari mais gostava era dos momentos que passava junto à Mônica: sabe aqueles instantes em que o tempo parece não passar, que os segundos batem no ritmo de nossos corações... era assim que Ari se sentia quando estava com Mônica.

Ari sabia que era impossível a amizade entre um homem e uma mulher, a não ser que um visse o outro como se fosse do mesmo gênero – o que não era o caso. Ari, por incrível que pareça, tímido, tinha que tomar a iniciativa. Mas como, se a moça era comprometida?

Pois bem, o certo que o desencadear da vida acabou lhe ajudando. Seu amigo Hideraldo tinha um emprego público garantido no interior – fazia parte do projeto político de seus pais. Contudo, Hideraldo tinha se tornado urbano de mis e acabou por indicar Ari para o ofício. E como contei, Ari não sabia muito bem o que fazer após a formatura...
 E, meio de brincadeira, em uma das conversas que teve com Mônica  propôs à jovem: “Que tal ganharmos a vida no interior. Lá não tem muito advogado e a demanda por ações envolvendo imóveis e previdência sobram. Lado outro, aqui há excesso de profissionais e somos apenas mais alguém na multidão. Naquela cidade não: você será a Dra. Mônica e eu o Dr. Ari, pessoas com o mesmo status do delegado, prefeito, padre etc”.

Por mais absurdo que pareça (até mesmo para Ari e para mim), Mônica entendeu por bem largar tudo e tentar a vida no interior. Seus reais motivos, jamais saberei declinar. É que como homem – e mau escritor que sou –, consigo enxergar as razões de Ari mas não as da moça, afinal de contas “não sou nenhum Chico Buarque”.

Pois bem, o fato é que quando foram para aquela cidade não tinham nada. Na esfera profissional, Ari tinha um modesto emprego público e Mônica uma expectativa; na pessoal, um projeto de vida em comum...um ato de liberdade. 

Mas o mais engraçado foi a primeira noite em que passaram juntos. Imaginem um casal que jamais havia se tocado, sozinhos, em um casarão daqueles (...)



The long and winding road, that leads to your door. Will never disappear. I've seen that road before. It always leads me here, lead me to your door … (The Beatles - The Long And Winding Road).


( … crônica “O Pipoqueiro”…continua…)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Um conto Kafkiano


Rogério F. abriu os olhos ao toque do celular.

Não era ninguém. Sabia disto pelo prefixo 011. Como não tinha conhecidos em São Paulo, acreditou ser do serviço de telemarketing e, como não queria começar o dia tendo amolações, recusou a chamada.

Após o telefonema, não conseguiu mais dormir. Por isto abriu a cortina, ao que o quarto explodiu em raios de luz solar. Alguma coisa, no entanto, parecia diferente. Olhou para os lados.

Pensou: “É a ereção matutina”.

 Embora estivesse com a bexiga estourando, incrivelmente, não tinha ereção.

-  Deve ser ontem. Exercitei-me muito!

Rogério F., na noite anterior, havia tido a companhia de duas prostitutas. Desde a separação, sua vida era esta: não passava um final de semana sem uma companhia feminina. Se não conseguia pela conquista: pagava.

Rogério F. morava sozinho. Deixou o seu apartamento – herança de família -  para ex-mulher e agora pagava aluguel em um espaço quatro vezes menor. Em troca, poderia visitar o filho quando quisesse.

Naquela manhã, porem, havia algo de errado. Não era só a ausência de ereção. Rogério F. sentia que lhe faltava alguma coisa.

Será que fui roubado pelas mulheres?

Rapidamente conferiu a carteira, podendo constatar que não faltava nada.

Talvez fosse o vazio interior.

Então levantou, ergueu os magros braços, espreguiçou, bocejou e levou as mão ao rosto. Outra coisa diferente: sua face estava incrivelmente lisa, para alguém que era obrigado a se barbear todas as manhãs.

- Vou guardar a marca deste novo aparelho; é bom!

Em seguida, Rogério F. se dirigiu a banheiro. Abriu a porta, levantou a tampa do sanitário e, quase que simultaneamente, afrouxou a parte superior do calção esperando que o membro saltasse para fora.

Nada aconteceu.

Uma pontada.

Meu Deus!

Levou a mão! Nada encontrou.
Boquiaberto, se olhou no espelho.

- Só pode ser um pesadelo.
Molhou o rosto, na esperança de acordar.

Nada aconteceu.

Tomou coragem.

Afrouxou de novo o calção e olhou.

Os pêlos pubianos continuavam ali. Mas... e o pênis?

Tomou corarem e abaixou novamente a vestimenta.

Nova surpresa: no lugar do falo, havia uma vagina.

Rogério F. parecia que foi transportado para outra dimensão, permanecendo atônito por um longo espaço de tempo. Cuidou de rever os seus conceitos e suas premissas, na tentativa de afastar, de forma intelectiva, a desgraça que se apresentava diante de seus olhos.

Não logrando êxito, a única coisa a se fazer era admitir a realidade. Aliás, aceitar os fatos é o primeiro passa para cura.

Raciocinou:

             - Ligo para o Samu? Para ex.? Para  o Francisco.

            Ato contínuo afastou o pensamento imbecil. Não queria virar alvo de chacotas e nem tampouco ser exposto em documentários ou programas dominicais como mais uma aberração.

            Decidiu então, ao menos no momento, ficar indiferente. Mais tarde, com calma, poderia estudar uma solução.

E dando prosseguimento aos rituais diários, despiu-se por completo, entrou no Box e ligou o chuveiro. Molhou a cabeça e, acompanhando o caminho da água sobre o corpo, olhou para o tórax. Observou, então, mais uma coisa estranha: os mamilos estavam protuberantes e inchados. Apalpou-os sentiu a mesma maciez dos seios femininos naturais.

Antes de entrar em novo transe, percebeu que aquele seria o menor de seus problemas. A camisa e o paletó disfarçariam bem.

Assim sendo, terminado o banho, vestiu-se e penteou - se.

Após, pegou a valise e desceu ao elevador.

            Ligou o carro.

Dirigiu por cinco quadras e parou na padaria:

            - Café amargo e pão com manteiga, pediu.

            Virou para os lados e, instintivamente, seu olhar se deteve em glúteos e seios femininos. Não teve ereção – é obvio -, mas sentiu, como sempre, um forte desejo pelas mulheres que por ali passavam.

- Graças a Deus! Pelo menos não virei Gay.

            Terminado o café, rumou para o escritório, no prédio ao lado. Era uma segunda-feira atípica, sem muito serviço. Por isso, Rogério F. pôde ficar a tarde inteira na internet pesquisando se havia registro, de má sorte igual a sua, nos anais da medicina.

Sem êxito: seu caso parecia ser o único.

            Para não deixar vestígios, cuidou de apagar todo histórico de navegação, cookies e arquivos temporários do computador. Se alguém desconfiasse do seu caso, estaria perdido.

            Nas semanas seguintes, Rogério F. continuou agindo normalmente. Embora fosse um homem preso em um corpo afeminado, se ninguém descobrisse a existência da vagina, não haveria problemas.

            Agora, era se concentrar no teste que se avizinhava. Rogério F. havia sido aprovado no concurso para delegado de polícia. Vencera todas as etapas: prova de múltipla escolha, prova dissertativa e teste psicotécnico. Só falta o exame físico do sábado.

            Aliás, diga-se de passagem, nosso protagonista sempre se saia bem em testes físicos - o corpo leve e magro era um aliado em corridas, provas com barras, abdominais e flexões. Por este motivo, estava confiante: qualquer coisa que viesse tiraria de letra.

Então, para efeito de nomeação, era só comprar um atestado médico de aptidão e não precisaria passar maiores constrangimentos.

            O que Rogério F. não sabia era que a avaliação física e a inspeção médica eram feitas, na mesma oportunidade, por uma junta de profissionais.


Chegado o dia, após as provas de praxe, aquele que parecia ser o chefe da equipe – um senhor alto, forte, de óculos e com o bigode grisalho – vociferou:

            - Tire a roupa!

            O candidato, a princípio, recusou, dizendo ter pudores.

            - Então fique só de cueca, redargüiu o médico.

            Diante das circunstâncias e na falta de argumentos, não cabia outra opção senão obedecer.

Iniciaram-se, com isto, os procedimentos médicos. A cada avaliação que se fazia, Rogério F. ia adquirindo maior confiança, eis que os doutores aparentavam ser pessoas sérias e não iriam querer ver suas intimidades.

Contudo, sem prévio aviso e de forma abrupta, o chefe dos examinadores arriou-lhe a veste, dando de cara com a abominação. Ato contínuo e sem dar chance à defesa, o alcaide ordenou que os subalternos o levassem, junto com o laudo, à presença do Delegado-Geral, a quem incumbia a iniciativa do inquérito em caso de fraude a concurso.

Chegando lá, Rogério F. tentou, sem sucesso, se justificar. Apresentou, inclusive, a carteira de identidade, o que só veio agravar a situação: além de responder por falsidade ideológica e fraude a concurso, foi ainda indiciado por adulteração de documento público.

Concluiu o delegado que, como havia menos vagas no certame para mulheres, passar-se por homem representaria uma grande vantagem na disputa. E como castigo, Rogério F. passaria a noite em uma cela lotada de travestis:

- Já que ele diz ser homem, não haverá problemas.

            Porém, antes de encaminhá-lo ao cárcere, o Delegado-Geral determinou ao escrevente que lesse os seus direitos, o que foi feito destacando que Rogério F. faria jus a um telefonema. No entanto, temendo que sua vergonha fosse a público e que viesse a ser humilhado pela família e pelos colegas de trabalho, recusou a prerrogativa.

Levado ao xadrez, Rogério F. tinha que encontrar rápido em uma solução. Sabia que não tinha muito tempo. Logo algum funcionário do distrito espalharia a notícia para um destes jornalecos populares, e aí, a vergonha seria maior.

Com efeito, no desespero, começou a formular uma tese: talvez a mutação não tivesse sido completa e seu pênis estivesse lá, escondido em algum lugar. Do contrário, naquela manhã fatídica, era de se esperar que se encontrasse algum vestígio do falo caído fora do corpo, o que efetivamente não ocorreu. Se estivesse correto, era só estimular sua libido que, fatalmente, o seu pênis sobressairia da fenda vaginal.

Para tanto, não poderia ser um estímulo leve, como aquele que ocorrera na padaria há algumas semanas, mas algo capaz de provocar um orgasmo. Como não havia nenhuma mulher por perto, a solução seria contar com a ajuda dos seres andrógenos que o rodeavam. Tal tarefa não se apresentava fácil, pois, mesmo nas condições de Rogério F., era demais vergonhoso para um homem se relacionar com um travesti, além do que, poderia não haver excitação.

- Não tenho alternativas, pensou ele, o jeito é entrar no jogo e imaginar que são mulheres de verdade! No mais, é só evitar o contato de certas partes de seus corpos.

Assim sendo, contratou os serviços das três “moças” que lhe faziam companhia, na vã esperança de que, após apalpá-las, sua tese se confirmasse, pondo fim ao seu martírio.

Todavia, depois de inúmeras tentativas, nenhum milagre ocorreu.

Como não tinha aporte  para pagar pelos serviços contratados, foi brutalmente espancado. Ainda agonizava quando os credores, feito abutres em carne podre, iniciaram a partilha dos poucos pertencentes que Rogério F. trazia consigo: um relógio, um tênis de marca e a roupa do corpo.

Desnudaram-no por completo, procurando por algo de valor em suas intimidades. É que na cadeia, tais locais são comumente utilizados para guarda e transporte de drogas, celulares, dinheiro e afins. E se tivessem sorte, poderiam ser bem ressarcidos pelo trabalho.

Contudo, acharam outra coisa,  que os deixou estupefatos:

- Meu Deus, que aberração!

 Jamais tinham visto aquilo: um homem com uma vagina. De imediato veio o arrependimento, mas não havia mais nada a ser feito. É a lei da cadeia: quem deve paga, nem que seja com a própria vida.

 E antes de cerrar os olhos, caído na poça de sangue que inundava o chão do recinto, Rogério F. ouviu tocar o aparelho celular do carcereiro. A estas horas – pensou –  melhor que o dono não atendesse, decerto seria o telemarketing!

*** 

Encontrei uma barata na cozinha/Eu olhei prá ela
Ela olhou prá mim/Ofereci a ela/Um pedaço de pudim
O curioso foi que ela...

Ela disse: Sim!/Vem cá ficar comigo/Sim! Goste de tudo que eu gosto
Sim! Vem cá ficar comigo/Sim! Vem, kafka...

Ofereci a ela/Um disco do Sex pistols
Ofereci a ela/Uma batida de limão
Perguntei se ela/Gostava dos Beatles
Perguntei se ela/Era de escorpião...

Ela disse: Sim!/Vem cá ficar comigo/Sim! Goste de tudo que eu gosto
Sim! Vem cá ficar comigo/Sim! Vem, kafka...

Você mora na barata ribeiro/Num edifício
Que tem um buraco/Perto do chuveiro
Já se drogou com detefon/Insetizan, fumou baygon
Tudo quanto é tipo de veneno/Você acha bom...

Sim!/Vem cá ficar comigo
Sim! Goste de tudo que eu gosto
Sim! Vem cá ficar comigo/Sim! Vem, kafungá...

Como posso evitar/Essa coincidência
Encontrar uma barata/Com a minha aparência
Como posso evitar...

La Cucaracha La Cucaracha
Tome cuidado com a
Sandália de borracha (...)

( Uma Barata Chamada Kafka//Inimigos do Rei//Comp. Luiz Guilherme/Marcelo Marques/Paulinho Mosca)

sábado, 9 de julho de 2011

"Salvem" a Seleção.

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Não acredito em numerologia, astrologia, horóscopo e afins. Penso que somente através da razão conseguimos antecipar acontecimentos futuros. Sendo assim, não é preciso ser dotado conhecimentos extra-sensoriais para saber que, se não mudarem o técnico, a Seleção Brasileira de Futebol vai por água abaixo. Esqueçam a Copa do Mundo de 2014.

O  “Técnico do Curintia”, como costumo brincar, não tem pulso para enfrentar os “interesses ocultos” que rondam o futebol mais vitorioso do mundo. Embora não o conheça pessoalmente, é esta a impressão que tenho quando escuto suas entrevistas, acrescentando ser ele um homem sem carisma, portanto, incapaz de motivar os jogadores. 



Também não acredito que Neymar possa deslanchar neste time. O seu futebol é incontestável, mas a sua postura em campo e enquanto pessoa é duvidosa. Talvez a fama e o dinheiro rápido não tenham feito bem ao artilheiro-adolescente, que perdeu a grande oportunidade de levar uma boa lição do técnico Dorival Júnior, não fosse a postura condescendente da diretoria do Santos. Decerto, o melhor para ele, seria jogar fora do Brasil, como bem assinalou Ronaldo Nazário noutra ocasião.



Dunga, por outro lado, conduziu a seleção de maneira primorosa. Os números não mentem: ganhou quase tudo que disputou (77,94% de aproveitamento). Recuperou o brio de se vestir a camisa “amarelinha” e, ao lado de Zagallo (79,19%), Telê (78,78%) e Feola (78,66%) foi o técnico com maior índice de aproveitamento. Cometeu um erro aqui, outro acolá – coisa natural em qualquer profissão – e acabou não levando a Copa. O problema é que o cara resolveu encarar a impressa, em especial, a “toda poderosa” Rede Globo de televisão. Daí era de se esperar que a ira dos “deuses” da mídia recaíssem sobre ele, o que resultou em uma campanha injusta e difamatória e um “exílio” forçado. 

Gostaria de estar enganado em minhas colocações. Gostaria que a Seleção Brasileira encontrasse o seu caminho, que Neymar marcasse muitos gols e que o “Técnico do Curintia” calasse a minha boca. Mas, lamentavelmente, em minha bola de cristal, o futuro se revela mais sombrio.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

A rainha das Prostitutas



Tida como a profissão mais antiga do mundo, a prostituição é repudiada pela sociedade, sendo certo que a moral coletiva não admite que alguém se entregue a lascívia de outrem em troca de dinheiro. Lado outro, é tolerada,  valendo como “válvula de escape” para certas tensões que, uma vez retidas, poderiam abalar as estruturas sociais provocando um verdadeiro colapso e instituindo o caos. Daí denominação “casa de tolerância”, quando nos referimos aos prostíbulos. Palavras outras, aceita-se a prostituição, mas não a prostituta.

A Wikipédia, oráculo moderno, assim define a atividade: puteiro é o local destinado à prostituição, o qual atua muitas vezes de forma ilegal, uma vez que tal prática ainda é considerada crime em grande parte dos países (...) Os prostíbulos são geralmente administrados por mulheres mais velhas - via de regra ex-prostitutas - que assumem a liderança da casa de prostituição onde trabalharam ou abrem outra, com novas meninas. As proxenetas, ou, mais popularmente cafetinas, as "matronas" ou "patroas" são em geral carinhosamente chamadas de "mãe", "mãezinha", "mãinha", "tia", "dona" etc. Quase sempre gozam de prestígio e respeito nas comunidades onde vivem”.  

Acrescentando ao conceito, interessante ressalvar que tais casas recebem gente de todo tipo: de pobres e "fodidos" a ricos e poderosos.

Pois bem, a definição supra parece se justapor com exatidão à realidade dos  grandes meios de comunicação: são geralmente administrados por pessoas mais velhas – via de regra ex-jornalistas ou pessoas ligadas à grupos políticos – que assumem a liderança do Jornal ou TV em que trabalham ou abrem outro, com novas “meninas”. As matronas  brasileiras são carinhosamente reverenciada por todos, e gozam de grande prestígio na sociedade, sendo suas casas freqüentada por gente da mais alta classe, dentre eles políticos, empresários, autoridades etc.

Feita tal reflexão, entendo porque a imprensa brasileira, embora aja a margem da moral (quiçá da lei), não é incomodada por ninguém. Conforme sintetiza um amigo, têm verdadeira “licença para matar”: distorcem a verdade; dão ênfase apenas ao que lhe interessam; deixam de divulgar assuntos que não lhes é conveniente; são panfletários; se curvam diante do poder econômico; se acham no direito de criticar a todos e qualquer instituição, mas jamais aceitam que alguém lhe faça qualquer crítica. 

Quando alguém fala em “Controle da Imprensa” logo reagem e se escondem sobre o véu da “liberdade de expressão”. Aliás, é comum a qualquer ditador procurar argumentos éticos para justificar suas atrocidades: Hitler matou indiscriminadamente sob o pretexto de reconstruir a então destruída Alemanha; os militares brasileiros deram um golpe de estado e governaram durante anos sobre o pretexto de garantir a “segurança nacional”; os EUA invadiram o Iraque, dizimaram homens, mulheres e criança para proteger o mundo da “ameaça nuclear”, o que ficou provado posteriormente não passar de um mais um engodo dos senhores das armas.

Não quero aqui colocar em evidencia o papel de jornalistas sérios, nem da importância da liberdade. Mas o que quero é salientar que qualquer direito e liberdade constitucional é limitado, até mesmo o direito a vida, eis em é permitida a pena de morte em caso de guerra (art. 5, inciso LXVII da CR/88). Qualquer Poder estatal ou instituição democraticamente eleita está sujeita ao controle social (Judiciário, Legislativo, Executivo, Ministério Público, Tribunal de Contas etc), e porque os meios de comunicação, que não são eleitos e estão concentrados na mãos de poucos, podem agir da maneira que lhes convier?

Recentemente tive um exemplo contundente. Alguém entrou na Justiça pleiteando indenização de uma emissora de TV por acreditar ter sido exposto injustamente. No final do processo, o Juiz entendeu que o meio de comunicação tinha razão. Um outro amigo, empolgado com a decisão, fez um resumo e remeteu à um site para publicação, espaço este dedicado a este tipo de artigo. A responsável, com muito “jeitinho”, lhe telefonou, elogiou o artigo, mas disse que não iria publicar eis que a ética da categoria não permite divulgação de informação envolvendo outro meio de comunicação.

Pergunto: não poderiam publicar a matéria omitindo apenas o nome dos envolvidos, como comumente o fazem em relação a outros casos? Reflito: se não publicam uma decisão favorável a imprensa, o que dizer então em relação a uma crítica ou decisão desfavorável. Repugno: quanto vezes ficamos sem acesso a informações importantes por causa da “ética da imprensa”?

Imaginemos se, pelas mesmas razões, um policial deixasse de prender um subalterno que acabasse de cometer um crime? Um Prefeito deixasse de cobrar IPTU de um correligionário?  Um Promotor de Justiça deixasse de processar um candidato, que desrespeitou a lei eleitoral, por ter sido ele também Promotor no passado?

A questão se agrava ainda mais quando pensamos que os meios de comunicação funcionam sob o regime de concessão pública, ou seja, atuam em uma seara pública e, portando, deveriam se submeter aos princípios inerentes a tais atividades, mormente os estampados no art. 37 da CR/88. 

Ao contrário, o que vemos é uma imprensa corrupta, mentirosa, vendida, sem compromisso com a verdade, que não respeita a pluralidade existente no país; uma imprensa que quer passar a imagem de "pensamento único",  de "imparcialidade" , mas que faz de si mesmo uma "garota de programa" diante dos poderosos.

          Certo é que a prostituição não é crime, mas tão somente a exploração dela por terceiros, seja mantendo a casa de prostituição (art.229 do CP), ou atuando como cafetão (art.230 do CP). Contudo, se a prostituição não é crime do país, mas sim a sua exploração, porque não prender as matronas corruptas e mentirosas da imprensa e política brasileiras, que se locupletam da prostituição de certos profissionais, sob a acusação de rufianismo? Porque não colocar o controle dos meios de comunicação nas mãos de pessoas que possam representar a diversidade cultural, política, filosofica e cultural existente no pais ? E que  assim sendo,  tais possam agir com total liberdade, ancorados na verdade e acima de tudo  comprometido com os preceitos morais e éticos.


Para arrematar, melhor pensando, minhas escusas, pela comparação inadequada, às senhoras que se dedicam a venda de seus corpos . Ao menos elas, diferentemente da imprensa, dispõem daquilo que exclusivamente lhes pertence, além do que, em um puteiro, as coisas são bem mais claras.

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Se acaso me quiseres/ Sou dessas mulheres Que só dizem sim/ Por uma coisa à toa/ Uma noitada boa /Um cinema, um botequim /E, se tiveres renda /Aceito uma prenda Qualquer coisa assim /Como uma pedra falsa /Um sonho de valsa /Ou um corte de cetim /E eu te farei as vontades /Direi meias verdades /Sempre à meia luz /E te farei, vaidoso, supor/ Que é o maior e que me possuis /Mas na manhã seguinte /Não conta até vinte /Te afasta de mim/ Pois já não vales nada /És página virada/ Descartada do meu folhetim. (Chico Buaque de Holanda em “Folhetim”.)

sábado, 18 de dezembro de 2010

O duro é ser mau



 Eu odeio gente boazinha”, desabafava a insigne docente de direito tributário nas manhãs de sábado da PUC/Contagem.

 Para ancorar a sua tese, tomava como exemplo um caso de fraude no antigo Bolsa Escola, benefício social do Governo Federal que visava diminuir a exploração do trabalho infantil através da freqüência obrigatória à escola. No caso, quando o aluno estava ausente era sinal de que estava trabalhando para ajudar no orçamento familiar, situação que além de lhe expor a riscos comprometia o seu futuro, impedindo-lhe o acesso a educação. Desta feita, para que a família pudesse receber o benefício, deveria cuidar para que o filho freqüentasse as aulas, do contrário, o dinheiro não viria ao final do mês.
Pois bem, certa feita os jornais noticiaram um logro: professoras lançavam presença para quem estava ausente. Em entrevista, uma estelionatária “boazinha” se explicou sob o argumento de que não seria justo deixar a família pobre sem o benefício. Assim, a razão de ser do bolsa família - proteção à criança –  se perdeu: a exploração continuou e o futuro do infante restou comprometido, haja vista que sem estudo não se poderia atribuir-lhe melhor destino. Em síntese: sob o argumento de se fazer justiça se cometeu uma injustiça ainda maior.
Gente boazinha é assim, faz o mal com o pretexto de fazer o bem. São cheias de si, vaidosas, irresolutas, incapazes de fazer qualquer reflexão. Cometem atrocidades e não lhes dói a consciência. Querem estar de bem com todo mundo a qualquer tempo, por isso não batem de frente com ninguém. Quando no serviço público têm tendência à ineficiência, à corrupção e ao favorecimento. Aliás, os maiores corruptos da história brasileira são bonzinhos, simpáticos, andam sorridentes e distribuem “panetones” aos montes, pois é “dando que se recebe”. Quem não se lembra da cena de um bonzinho religioso fazendo uma oração para agradecer a Deus pela benção (leia-se: dinheiro sujo) alcançada?
Não se pode esquecer, ainda, dos pais “bonzinhos” que não ensinam regras e nem impõe limite aos filhos. Realizam todos os seus desejos contribuindo para lhes transformar em verdadeiros escravos de si mesmos. Daí quando crescem e se deparam com um mundo onde nem tudo é possível e permitido viram pessoas fúteis,  amargas, frustradas  e, não raro, transgressoras. Tudo isto porque são acostumadas ao prazer rápido e efêmero, sendo incapazes de pensar e trabalhar um projeto a longo prazo; como egoístas que são, nunca trabalharão para as grandes causas e, certamente, deixarão como herança um mundo pior do que aquele que receberam.

Gente boazinha é um perigo para humanidade! O exemplo vem do cinema: não é a toa que o estrangulador Charles Lee Ray, o “Chuckie” do filme o “Brinquedo Assassino” se incorporava em um boneco da linha “Good Guys” - o que na primeira película é traduzido como “Bonzinho”. Toda criança sonhava em ter um Bonzinho para brincar, sem saber que poderia estar adquirindo junto um serial killer.  Por sua vez, o cara realmente era mau, ou melhor, bom (eficiente) no que fazia: esfaqueava pessoas, atacava crianças, dava tiro, pauladas, garfadas...e quase ninguém escapava. E ao final, ainda saia sorrindo depois que a vítima sucumbia. O típico lobo sob a pele de cordeiro.
Por isso é que eu jogo no time dos maus.
Ser mau não é fácil. Temos nossas convicções, nossos princípios e idéias,  mas não somos turrões. Como enfrentamos tudo e todos a qualquer tempo somos forçados a refletir constantemente. Quem é mau tem insônia, pois antes de dormir reavalia tudo aquilo que fez durante o dia para certificar-se da correção. O bonzinho não: deita na cama e dorme.
Até Jesus (o de verdade: não o Inri nem o da Madona) era mau. Quantas vezes teve que ser duro com seus discípulos, pois o tempo para ensinar-lhes as lições era curto. Daí não ser estranho que, em um episódio famoso, o cara saiu “embicudando” as bancas dos “vendilhões do templo” para ver se assim entendiam o verdadeiro sentido da oração. Aliás, se Cristo fosse bonzinho não teria sido crucificado: decerto teria feito um acordo com Pilatos ou com os chefes judeus e conseguido um cargo público comissionado, onde poderia distribuir pão e circo aos pobres e ajudar aos moribundos. O problema e que ficaríamos sem um salvador, e os ideais cristãos de amor ao próximo e benevolência não se propagariam. Não teríamos os santos nem os mártires, e talvez a humanidade estaria em um estado tamanho de selvageria e agressividade – maior do que os já vistos– o  que tornaria impossível o modo de vida atual.
Portanto, até segunda ordem; até que  hoje eu deite na cama e reflita sobre tudo aquilo que, pensei, falei, fiz, e escrevi; sobre todas as pessoas que encontrei; sobre todas as idéias que confrontei; sobre todas ações que realizei ou deixei de realizar estou convencido de que ser incondicionalmente bom é ser do “mal” e, por vezes, é preciso ser “mau” para ser do “bem”.¢

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O PIPOQUEIRO

Numa destas cidade do interior, que quase não existem mais, havia um pipoqueiro, por nome Sr. Juca, que fazia ponto na única praça em frente a igreja. Era um sujeito alto, magro, de bigodes e cabelos levemente embranquecidos, que oferecia aos moradores, além da saborosa pipoca, um bom papo.


Era comum, pouco antes de terminar a missa, todos sentirem o cheiro da pipoca doce invadir a nave central da Matriz, deixando as crianças afoitas para provar da iguaria. O padre, certa feita, quis reclamar com o pipoqueiro pois, nestas ocasiões, se necessário, não conseguiria prolongar o sermão. Contudo, logo desistira da idéia, eis que as pipocas lhe eram dadas gratuitamente.


O sujeito fazia parte do cenário da cidade, e quem por ali passasse imaginaria que crescera vendendo pipocas, ofício que certamente teria herdado de seu pai. Mas não era verdade. Sr. Juca apareceu na cidade há pouco tempo, não mais que dois anos. Ninguém sabia ao certo de onde vinha. Perguntado, se restringia a informar que era aposentado e que trabalhou em um setor burocrático de um órgão público. Apesar de bom de prosa, era discreto em relação a certos temas, sendo que sua vida pregressa era desconhecida pelos habitantes daquele local.


O pipoqueiro mantinha hábitos estranhos. Pelo menos duas vezes por mês, se ausentava da cidade. Nesta ocasiões, vestia-se com um refinado terno, sapatos engraxadíssimos, bigodes aparados, cabelos rigorosamente penteados. Pela manhã, bem cedo, um táxi, sempre conduzido pelo mesmo motorista, Sr. Alex, o aguardava em frente à porta de casa. Em seguida saia, cumprimentava os senhores que já naquela hora se faziam reunir na praça, entrava no veículo e pé na estrada.


- Lá vai encontrar com a namorada! Dizia um velhinho.
- Ê vida boa! Exclamava o outro.

Sr. Juca voltava lá pelas tantas da noite e, não fosse a curiosidade dos moradores do interior, sua chegada passaria incólume.

As especulações sobre a vida do pipoqueiro eram muitas: fazendeiro, milionário excêntrico, policial disfarçado, repórter, agente secreto, empresário, fugitivo etc.

E para apimentar ainda mais as discussões, certa feita chegou na cidade uma andarilho, velhinha, com notáveis problemas psicológicos, maltrapilha e com aparência de faminta. Os moradores, sempre solidários, lhe deram comida, um banho, roupas novas e um abrigo temporário – na casa de D. Candinha. No entanto, embora quisessem ajudar mais, não puderam: a andarilho vivia presa em seu mundinho e não se comunicava. Aparentava ser surda. E para piorar, tinha um grave defeito: era inquieta. Se deixassem o portão aberto ou se descuidassem dela, saía sem rumo certo, sempre na mesma marcha, e desaparecia. Posteriormente se soube que foi assim, por um simples descuido, que a andarilho, à época jovem, veio a andarilhar, deixando para trás a terra natal, os pais, irmãos e demais parentes.


Pois bem, levaram-na para passear na cidade e, naturalmente, para provar a famosa pipoca do Sr. Juca. Lá chegando, a pobre coitada, com uma cara de espanto, postou-se boquiaberta diante do pipoqueiro. E com aquela segurança e certeza que somente os loucos podem ter, foi incisiva:

- É o Vieira !

Imediatamente todos olharam para o pipoqueiro aguardando alguma revelação surpreendente. A curiosidade foi tanta que poucos notaram que aquelas eram as primeiras palavras pronunciadas pela velhinha.

No entanto, com a mesma calma que lhe é peculiar, o sujeito encheu um saquinho com pipoca e com um meio sorriso no rosto, ofertou-a a viajante:

- Hum! Eu não sou o Vieira, mas agradaria muito se a senhora aceitasse uma pipoquinha.

Mais que depressa a andarilha se pôs a comer o delicioso petisco, deixando todos os presentes com uma grande interrogação.

... continua ....