Rogério F. abriu os olhos ao toque do celular.
Não era ninguém. Sabia disto pelo prefixo 011. Como não tinha conhecidos em São Paulo, acreditou ser do serviço de telemarketing e, como não queria começar o dia tendo amolações, recusou a chamada.
Após o telefonema, não conseguiu mais dormir. Por isto abriu a cortina, ao que o quarto explodiu em raios de luz solar. Alguma coisa, no entanto, parecia diferente. Olhou para os lados.
Pensou: “É a ereção matutina”.
Embora estivesse com a bexiga estourando, incrivelmente, não tinha ereção.
- Deve ser ontem. Exercitei-me muito!
Rogério F., na noite anterior, havia tido a companhia de duas prostitutas. Desde a separação, sua vida era esta: não passava um final de semana sem uma companhia feminina. Se não conseguia pela conquista: pagava.
Rogério F. morava sozinho. Deixou o seu apartamento – herança de família - para ex-mulher e agora pagava aluguel em um espaço quatro vezes menor. Em troca, poderia visitar o filho quando quisesse.
Naquela manhã, porem, havia algo de errado. Não era só a ausência de ereção. Rogério F. sentia que lhe faltava alguma coisa.
Será que fui roubado pelas mulheres?
Rapidamente conferiu a carteira, podendo constatar que não faltava nada.
Talvez fosse o vazio interior.
Então levantou, ergueu os magros braços, espreguiçou, bocejou e levou as mão ao rosto. Outra coisa diferente: sua face estava incrivelmente lisa, para alguém que era obrigado a se barbear todas as manhãs.
- Vou guardar a marca deste novo aparelho; é bom!
Em seguida, Rogério F. se dirigiu a banheiro. Abriu a porta, levantou a tampa do sanitário e, quase que simultaneamente, afrouxou a parte superior do calção esperando que o membro saltasse para fora.
Nada aconteceu.
Uma pontada.
Meu Deus!
Levou a mão! Nada encontrou.
Boquiaberto, se olhou no espelho.
- Só pode ser um pesadelo.
Molhou o rosto, na esperança de acordar.
Nada aconteceu.
Tomou coragem.
Afrouxou de novo o calção e olhou.
Os pêlos pubianos continuavam ali. Mas... e o pênis?
Tomou corarem e abaixou novamente a vestimenta.
Nova surpresa: no lugar do falo, havia uma vagina.
Rogério F. parecia que foi transportado para outra dimensão, permanecendo atônito por um longo espaço de tempo. Cuidou de rever os seus conceitos e suas premissas, na tentativa de afastar, de forma intelectiva, a desgraça que se apresentava diante de seus olhos.
Não logrando êxito, a única coisa a se fazer era admitir a realidade. Aliás, aceitar os fatos é o primeiro passa para cura.
Raciocinou:
- Ligo para o Samu? Para ex.? Para o Francisco.
Ato contínuo afastou o pensamento imbecil. Não queria virar alvo de chacotas e nem tampouco ser exposto em documentários ou programas dominicais como mais uma aberração.
Decidiu então, ao menos no momento, ficar indiferente. Mais tarde, com calma, poderia estudar uma solução.
E dando prosseguimento aos rituais diários, despiu-se por completo, entrou no Box e ligou o chuveiro. Molhou a cabeça e, acompanhando o caminho da água sobre o corpo, olhou para o tórax. Observou, então, mais uma coisa estranha: os mamilos estavam protuberantes e inchados. Apalpou-os sentiu a mesma maciez dos seios femininos naturais.
Antes de entrar em novo transe, percebeu que aquele seria o menor de seus problemas. A camisa e o paletó disfarçariam bem.
Assim sendo, terminado o banho, vestiu-se e penteou - se.
Após, pegou a valise e desceu ao elevador.
Ligou o carro.
Dirigiu por cinco quadras e parou na padaria:
- Café amargo e pão com manteiga, pediu.
Virou para os lados e, instintivamente, seu olhar se deteve em glúteos e seios femininos. Não teve ereção – é obvio -, mas sentiu, como sempre, um forte desejo pelas mulheres que por ali passavam.
- Graças a Deus! Pelo menos não virei Gay.
Terminado o café, rumou para o escritório, no prédio ao lado. Era uma segunda-feira atípica, sem muito serviço. Por isso, Rogério F. pôde ficar a tarde inteira na internet pesquisando se havia registro, de má sorte igual a sua, nos anais da medicina.
Sem êxito: seu caso parecia ser o único.
Para não deixar vestígios, cuidou de apagar todo histórico de navegação, cookies e arquivos temporários do computador. Se alguém desconfiasse do seu caso, estaria perdido.
Nas semanas seguintes, Rogério F. continuou agindo normalmente. Embora fosse um homem preso em um corpo afeminado, se ninguém descobrisse a existência da vagina, não haveria problemas.
Agora, era se concentrar no teste que se avizinhava. Rogério F. havia sido aprovado no concurso para delegado de polícia. Vencera todas as etapas: prova de múltipla escolha, prova dissertativa e teste psicotécnico. Só falta o exame físico do sábado.
Aliás, diga-se de passagem, nosso protagonista sempre se saia bem em testes físicos - o corpo leve e magro era um aliado em corridas, provas com barras, abdominais e flexões. Por este motivo, estava confiante: qualquer coisa que viesse tiraria de letra.
Então, para efeito de nomeação, era só comprar um atestado médico de aptidão e não precisaria passar maiores constrangimentos.
O que Rogério F. não sabia era que a avaliação física e a inspeção médica eram feitas, na mesma oportunidade, por uma junta de profissionais.
Chegado o dia, após as provas de praxe, aquele que parecia ser o chefe da equipe – um senhor alto, forte, de óculos e com o bigode grisalho – vociferou:
- Tire a roupa!
O candidato, a princípio, recusou, dizendo ter pudores.
- Então fique só de cueca, redargüiu o médico.
Diante das circunstâncias e na falta de argumentos, não cabia outra opção senão obedecer.
Iniciaram-se, com isto, os procedimentos médicos. A cada avaliação que se fazia, Rogério F. ia adquirindo maior confiança, eis que os doutores aparentavam ser pessoas sérias e não iriam querer ver suas intimidades.
Contudo, sem prévio aviso e de forma abrupta, o chefe dos examinadores arriou-lhe a veste, dando de cara com a abominação. Ato contínuo e sem dar chance à defesa, o alcaide ordenou que os subalternos o levassem, junto com o laudo, à presença do Delegado-Geral, a quem incumbia a iniciativa do inquérito em caso de fraude a concurso.
Chegando lá, Rogério F. tentou, sem sucesso, se justificar. Apresentou, inclusive, a carteira de identidade, o que só veio agravar a situação: além de responder por falsidade ideológica e fraude a concurso, foi ainda indiciado por adulteração de documento público.
Concluiu o delegado que, como havia menos vagas no certame para mulheres, passar-se por homem representaria uma grande vantagem na disputa. E como castigo, Rogério F. passaria a noite em uma cela lotada de travestis:
- Já que ele diz ser homem, não haverá problemas.
Porém, antes de encaminhá-lo ao cárcere, o Delegado-Geral determinou ao escrevente que lesse os seus direitos, o que foi feito destacando que Rogério F. faria jus a um telefonema. No entanto, temendo que sua vergonha fosse a público e que viesse a ser humilhado pela família e pelos colegas de trabalho, recusou a prerrogativa.
Levado ao xadrez, Rogério F. tinha que encontrar rápido em uma solução. Sabia que não tinha muito tempo. Logo algum funcionário do distrito espalharia a notícia para um destes jornalecos populares, e aí, a vergonha seria maior.
Com efeito, no desespero, começou a formular uma tese: talvez a mutação não tivesse sido completa e seu pênis estivesse lá, escondido em algum lugar. Do contrário, naquela manhã fatídica, era de se esperar que se encontrasse algum vestígio do falo caído fora do corpo, o que efetivamente não ocorreu. Se estivesse correto, era só estimular sua libido que, fatalmente, o seu pênis sobressairia da fenda vaginal.
Para tanto, não poderia ser um estímulo leve, como aquele que ocorrera na padaria há algumas semanas, mas algo capaz de provocar um orgasmo. Como não havia nenhuma mulher por perto, a solução seria contar com a ajuda dos seres andrógenos que o rodeavam. Tal tarefa não se apresentava fácil, pois, mesmo nas condições de Rogério F., era demais vergonhoso para um homem se relacionar com um travesti, além do que, poderia não haver excitação.
- Não tenho alternativas, pensou ele, o jeito é entrar no jogo e imaginar que são mulheres de verdade! No mais, é só evitar o contato de certas partes de seus corpos.
Assim sendo, contratou os serviços das três “moças” que lhe faziam companhia, na vã esperança de que, após apalpá-las, sua tese se confirmasse, pondo fim ao seu martírio.
Todavia, depois de inúmeras tentativas, nenhum milagre ocorreu.
Como não tinha aporte para pagar pelos serviços contratados, foi brutalmente espancado. Ainda agonizava quando os credores, feito abutres em carne podre, iniciaram a partilha dos poucos pertencentes que Rogério F. trazia consigo: um relógio, um tênis de marca e a roupa do corpo.
Desnudaram-no por completo, procurando por algo de valor em suas intimidades. É que na cadeia, tais locais são comumente utilizados para guarda e transporte de drogas, celulares, dinheiro e afins. E se tivessem sorte, poderiam ser bem ressarcidos pelo trabalho.
Contudo, acharam outra coisa, que os deixou estupefatos:
- Meu Deus, que aberração!
Jamais tinham visto aquilo: um homem com uma vagina. De imediato veio o arrependimento, mas não havia mais nada a ser feito. É a lei da cadeia: quem deve paga, nem que seja com a própria vida.
E antes de cerrar os olhos, caído na poça de sangue que inundava o chão do recinto, Rogério F. ouviu tocar o aparelho celular do carcereiro. A estas horas – pensou – melhor que o dono não atendesse, decerto seria o telemarketing!
***
Encontrei uma barata na cozinha/Eu olhei prá ela
Ela olhou prá mim/Ofereci a ela/Um pedaço de pudim
O curioso foi que ela...
Ela disse: Sim!/Vem cá ficar comigo/Sim! Goste de tudo que eu gosto
Sim! Vem cá ficar comigo/Sim! Vem, kafka...
Ofereci a ela/Um disco do Sex pistols
Ofereci a ela/Uma batida de limão
Perguntei se ela/Gostava dos Beatles
Perguntei se ela/Era de escorpião...
Ela disse: Sim!/Vem cá ficar comigo/Sim! Goste de tudo que eu gosto
Sim! Vem cá ficar comigo/Sim! Vem, kafka...
Você mora na barata ribeiro/Num edifício
Que tem um buraco/Perto do chuveiro
Já se drogou com detefon/Insetizan, fumou baygon
Tudo quanto é tipo de veneno/Você acha bom...
Sim!/Vem cá ficar comigo
Sim! Goste de tudo que eu gosto
Sim! Vem cá ficar comigo/Sim! Vem, kafungá...
Como posso evitar/Essa coincidência
Encontrar uma barata/Com a minha aparência
Como posso evitar...
La Cucaracha La Cucaracha
Tome cuidado com a
Sandália de borracha (...)
( Uma Barata Chamada Kafka//Inimigos do Rei//Comp. Luiz Guilherme/Marcelo Marques/Paulinho Mosca)